|
Consumidor não tolera esperar mais de um minuto
Pesquisa mostra insatisfação dos brasileiros com serviços de
call center.
“Só mais um minutinho, senhor." Quem agüenta ouvir a
lengalenga interminável dos serviços de atendimento ao
consumidor? Esta semana, o governo assinou um decreto
rigoroso sobre o assunto. O Fantástico revela agora, com
exclusividade, o resultado de uma pesquisa sobre o nível de
satisfação do consumidor com esses serviços. Imagine ficar
nove minutos ao telefone ouvindo a mesma desculpa: “Só mais
um momento, por favor senhor, estou finalizando aqui o
registro”, diz o atendente. “Só um momento, por favor”.
Haja paciência. O atendente repetiu a frase 11 vezes. Foi só
o início da saga de Marcos Diegues, gerente jurídico do
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). A
convite do Fantástico, Marcos viveu por um dia o inferno de
quem precisa cancelar um serviço de telefonia, TV a cabo ou
cartão de crédito.
“O atendimento hoje é péssimo”, afirmou o gerente jurídico
do Idec, Marcos Diegues.
O brasileiro está cada vez menos paciente com a ineficiência
no telemarketing. “Eles não sabem atender as pessoas direito
no telefone”, comenta uma jovem.
Essa é a conclusão de uma pesquisa obtida com exclusividade
pelo Fantástico, que ouviu 3,6 mil pessoas em oito capitais.
O estudo analisou o comportamento do consumidor desde 2002.
“Já fiquei mais de uma hora no telefone”, lembra uma jovem.
“Uma hora e 32 minutos e não resolvi”, diz outra.
A demora no atendimento foi considerada imperdoável. Se em
2002 o consumidor tolerava até cinco minutos para ser
atendido. Em 2005 o limite caiu para três. Hoje a maioria
acha inaceitável ficar mais do que um minuto aturando aquela
musiquinha, que o gerente jurídico do Idec, Marcos Diegues,
é obrigado a ouvir enquanto tenta cancelar o celular.
“Peço que aguarde, por favor”, diz o atendente.
Em todas as ligações, o gerente do Idec foi até o último
estágio possível antes de confirmar o cancelamento. O
objetivo era mostrar quanto tempo que o cliente perde.
“Eu precisava cancelar a minha linha telefônica e o meu
celular”, contou Marcos Diegues.
A ligação é transferida para o setor de retenção, que tem a
tarefa de fazer o consumidor mudar de idéia.
“O senhor consegue resgatar um excelente aparelho
gratuitamente”, oferece um atendente.
A negociação se arrasta por 22 minutos e 18 segundos. “É um
leilão”, compara o gerente do Idec.
O segundo teste é do cartão de crédito. Nosso voluntário
gasta sete minutos e 46 segundos. Até que foi rápido. Mas na
conversa com a TV a cabo... “Eu tenho a impressão que eu fui
transferido para aquele buraco negro, que ninguém atende”,
acredita Marcos Diegues.
Depois que conseguiu falar com alguém, o gerente do Idec
ficou 17 minutos e 20 segundos na linha.
“Fica claro a falta de respeito da empresa com o seu
consumidor”, analisa o gerente.
“Colocam uma pessoa totalmente despreparada para resolver o
seu problema”, observa um homem.
“Eles acabam transferindo para outro setor”, afirma outro.
“Para outro e nada resolve”, aponta uma jovem.
O jogo de empurra é uma das coisas que mais irritam o
consumidor, segundo a pesquisa que mediu o nível de
satisfação com os serviços de atendimento. Seis anos atrás,
a cortesia era o que mais contava. Agora, o cliente prefere
a eficiência.
Marcos Diegues continua sua saga. Chegou a vez do telefone
fixo. Foi o pior atendimento de todos: 34 minutos e 17
segundos perdidos com mensagens publicitárias e muita
enrolação.
A telefonia também tem tirado o sono do técnico de
informática Fernando Andrade. Há cinco meses, ele reclama de
erros na conta de internet de banda larga. “Cansei de
reclamar”, diz.
Há três meses, ele tenta cancelar, mas veja a dificuldade:
diante de nossa reportagem, ele passa 17 minutos e 56
segundos abandonado. “A minha mão chega até a formigar”,
comenta.
Na segunda tentativa, Fernando descobre que foi incluído
contra a vontade num programa de fidelização de um ano e
meio. “Se eu quiser cancelar, eu tenho que arcar com R$
370”, diz.
Meia hora cravada de blábláblá e nada. “É um parto”, comenta
Fernando.
O governo assinou esta semana um decreto, que entra em vigor
dia 1º de dezembro, com normas exigentes para o setor. As
empresas prestadoras de serviço vão ser obrigadas a manter
atendimento telefônico 24 horas por dia, sete dias por
semana. Terão que contratar mais gente, investir em
tecnologia e treinar mão-de-obra.
O cancelamento de qualquer serviço deverá ser imediato. Pena
que essas regras ainda não valem e não ajudaram Marcos
Diegues, o nosso voluntário do Idec. Ele passou, ao todo,
uma hora, 21 minutos e 41 segundos no maior sufoco. “Isso
porque eu não cancelei”, ressalva o gerente do Idec.
|